Os dois truques de Patanjali

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A experiência do “Momento Presente” é muito peculiar devido a que ninguém pode se apropriar dela, parece que se pode possuí-la ou capturar o “Momento Presente”, mas quando isto ocorre, já o perdeu. O “momento Presente” simplesmente está, e não há ninguém que possa conhecê-lo ou saber sobre ele.
Devido a esta peculiaridade, é difícil encontrar um método que torne possível a experimentação viva do “Momento Presente” ou que ajude a se estabelecer nele, no entanto, algumas das correntes filosóficas ou religiosas existentes possuem métodos para fazê-lo e o sistema Vedanta Advaita é uma delas.
O Vedanta Advaita apresenta seu método analítico de pesquisar a realidade de acordo com a relação existente entre sujeito e objeto. A experiência cotidiana coloca como evidência que o sujeito sempre se experimenta a si mesmo diferente dos objetos que conhece. Estabelecer a base de diferenciação de ambos, quer dizer, aonde começa e acabam os limites do objeto é necessário para apresentar ou não os limites da realidade. É complicado estabelecer uma fronteira o suficiente estável que sirva para delimitar esta relação cognitiva de sujeito – objeto. Foi Patanjali o primeiro a oferecer uma teoria que solucionasse este dilema cognitivo de uma maneira que é verdadeiramente interessante.
Patanjali apresentou que toda a informação da realidade cotidiana que possa ser interpretada através dos sentidos fazem parte dos objetos externos e do mundo externo; e toda informação que possa ser interpretada sem representação ou sem intervenção sensória, faz parte do sujeito e de seu mundo interno.
Sempre na cognição há sujeito e objeto. Quando se experimentam acontecimentos, sejam eles reais ou materiais (externos), ou sejam ideais (pensamentos, emoções, ou internos), sempre aparece a dualidade objeto-sujeito como parte efetiva da cognição. A grande contribuição de Patanjali é induzir que a atenção se situe exclusivamente nos objetos materiais externos e não em quem os detecta, e que a atenção se situe na capacidade ideal de auto-observaçao própria do sujeito quando este experimenta o seu mundo interno. Patanjali apresenta dois grandes truques, afirmando que no mundo interno se deve atender exclusivamente ao sujeito e, ao contrário, no mundo externo se deve atender exclusivamente ao objeto. E nisto consiste a prática de meditação.
É difícil para as pessoas estar muito tempo atentas aos objetos externos sem reparar em dar-se conta de si mesmas.A condição de se estar fora, quer dizer, submergidos nos objetos como se fora a primeira vez que os vêem, não é
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habitual para os adultos, mas para as crianças é algo habitual. Cada vez que uma criança experimenta um objeto o converte em um universo único, esquecendo-se de tudo mais que o rodeia, como quando a criança se esquece da dor produzida por uma batida quando se oferece a ela um doce.
Assim deveria ver o mundo do adulto, vivido como novidade, com intensidade e brilho; no entanto, na prática a maioria dos adultos vêem o mundo como de segunda mão, usado, sem vida. E se em algum momento ocorre esta estranha surpresa que provoca o assombro, esta percepção intensa freqüentemente dura muito pouco, apenas alguns instantes, para desaparecer oculta entre os novos e inumeráveis pensamentos que trazem recordações (memória).
No mundo interior ocorre algo semelhante quando o individuo aborda a prática meditativa: se busca estar atento ao observador, a si mesmo, a auto-observação, sem distração diante dos pensamentos que aparecem em forma de objetos mentais (pensamentos – emoções). Esta atividade excessiva de atender aos pensamentos impede o reconhecimento da condição da presença do observador, do sujeito. No mundo interior podem aparecer correntes de pensamentos tão grandes que convertem a prática meditativa interna em um caos total, apesar de se estar buscando a atender ao próprio sujeito e não aos pensamentos internos, a mente sempre se desliza para o passado e, uma e outra vez aparecem as lembranças.
Estes inconvenientes são a causa da falta de educação da mente em estar no “Momento Presente”. Ao ser humano lhe custa estar atento continuamente aos objetos externos quando seus sentidos estão ativos, ou em seu efeito, quando atende a seu mundo interior quando seus sentidos estão desconectados.
Então, o que se deve fazer para perceber continuamente a informação externa que faz parte do momento presente? Deve-se escolher qualquer parte do mundo externo, o que quiser que esteja acontecendo aqui e agora, e estar atento sensorialmente a ela como se fora a primeira vez que a experimenta, cheio de surpresa, vivo como nunca antes. Para isto não é necessário isolar-se do mundo, ao contrário, implica relacionar-se plenamente com o cotidiano, estando atento a escutar, a tocar, a degustar, a ouvir, a ver alternadamente formas e cores.
O coerente é que se alguém fala, se escuta a ele, se é a hora de comer, se saboreia a comida, se há um momento de prazer, busque senti-lo… O que não é coreto com estas premissas é ter um momento de prazer e pensar em qualquer outra coisa que não faz parte deste momento, ou estar comendo e buscar pensar em um momento de prazer, ou quando está trabalhando e querer descansar, ou quando está descansando pensar em comer.
O ser humano não flui coerentemente com os acontecimentos no “aqui e agora”.Não sabe e nem possui habilidade para viver em oportunidade de lugar e tempo. Não possui discernimento para poder viver continuamente com coerência no “Momento Presente”.
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A magia que há no “Presente” é intensa, mas o individuo não se atreve a vivê-la porque acredita que deve controlar continuamente as situações de sua vida. Se a vida mostra algo, é que aos acontecimentos ninguém os controla, igualmente não é possível controlar a acidez do sangue, nem a velocidade do crescimento do cabelo, nem a rapidez da digestão… Nada disto é possível controlá-lo a vontade e muito menos controlar o aparecer dos acontecimentos, que fluem no “Momento Presente”.
Simplesmente se trata de viver de maneira natural sem ter que estar em todo momento a espera de controlá-lo. A idéia da vida é lançar-se a experimentar e a viver com naturalidade, com fluidez. O ser humano tem um medo terrível de sofrer e isso lhe impede experimentar a naturalidade do “presente”. Prefere não atuar, incluindo a não amar pelo medo de sofrer, mas sempre será melhor levar-se a experimentar mesmo que isto lhe traga sofrimento e erro, pois a ação pelo menos deixará uma lição de tê-la vivido.
E que devemos fazer no mundo interior para detectar continuamente a informação que flui no “Momento Presente” interior? O primeiro e o mais importante é que os sentidos devem estar desconectados. Para isto basta estar atentos ao mundo interno no lugar de estar atento as informações que provêem dos sentidos. Trata-se simplesmente de esperar que a informação interna apareça em forma de pensamentos ou emoções sem que exista contaminação externa proveniente dos sentidos.
Para desconectar os sentidos não há que lutar contra eles, a solução não está em lutar contra os ouvidos para não escutar, ou contra o corpo para não sentir dor. Com certeza apareceram ruídos exteriores, mas eles não importam, deve-se regressar a espera atenta da aparição de pensamentos/emoções no mundo interior. Assim, uma e outra vez, e chegará o momento em que o mundo exterior desaparecerá.
A atitude correta de atenção associada ao mundo interno é de esperar pensamentos evitando converter-se neles. Deve-se esperar que apareçam e desapareçam continuamente, tendo em conta que quem observa o movimento mental deve estar separado deste. Com a prática constante os pensamentos se reconhecem mentalmente a frente, observando-os, vendo-os nascer e morrer.
A medida em que vão percebendo os pensamentos a distância, somados a um sujeito vivo que os observa de trás, notará que começa a ocorrer algo extraordinário: o mundo interior desacelera e começa a se aquietar, e a intensidade do acontecido aumenta em extremo. Aparece uma grande segurança no ato de ser observador da ausência de pensamentos, se torna uma testemunha inalterável de um “nada” cheio de conciência, cheio de vida, onde não emerge nem surgem pensamentos algum. Agora apenas fica um observador sem forma que detecta a distância sua própria ausência de história. A este processo intenso de percepção interior onde se é testemunha do vazio da própria história, denominamos “Observação Interior”.
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Este tipo de prática de “Observação Interior” pode ter um problema adicional: a mente pode chegar a criar um pensamento de ausência de história, quer dizer, para a mente não é fácil diferenciar claramente entre “um pensamento de vazio” e o que realmente buscamos que é “vazio de pensamentos”, ambas as situações representam coisas muito diferentes. Uma é observar-se interiormente sem história, sem emitir juízo algum, e outra é reconhecer a lembrança do vazio como evento histórico, como pensamento. O “presente” puro que flui no mundo interior é sempre vazio de história, não é um pensamento em forma de vazio histórico.
Mas não é a Observação Interior, é a ausência de história que se busca finalmente na prática interior, mesmo que esta experiência seja muito agradável. Há um passo posterior: quando o observador interior se converte em objeto da própria atenção. Se busca finalmente que a atenção de conhecer do sujeito se deposite no observador mesmo, deve-se atender a atenção.
Quando o observador se converte em objeto de observação, ocorre algo mágico no mundo interior, agora o observador é simultaneamente sujeito e objeto de cognição. Emerge a simultaneidade na percepção e isto faz que a perceptor, a testemunha interior (aquele que percebe) esteja em todo campo de cognição, em lugar de uma zona concreta dele mesmo, quando igualmente todo o conhecimento faz parte do observador.
Essa experiência é maravilhosa e inenarrável, pois o observador está em todas as partes e em nenhuma delas especifica do campo de atenção que agora se estabelece, também o campo interior não se diferencia do observador que conhece, assim observador e observado são simultâneos. O observador interior se fundiu no ambiente mental interior como o faz um gás no ar, a este novo estado se denomina “Concentração Interior”.
Posteriormente desaparecerá a fronteira que delimita o estado anterior, e segue produzindo a difusão em todo o campo existente mais além desta fronteira prévia, integrando-se a informação externa que antes existia independentemente. A este processo se denomina “Meditação”.
A solução mais inteligente que podemos alcançar a respeito da ação é a de viver para fora com intensidade sem temer nenhum aspecto da experiência cotidiana. Deve-se aprender a soltar-se, a sentir sem necessidade de estar pensando. Desta forma se pode ser livre na vida cotidiana e, em contrapartida no mundo interior.