Não-dualidade
O conceito não-dualidade é um termo utilizado pela tradição oriental, mais especificamente pelo sistema metafísico Vedanta Advaita1 , para denominar um tipo especial de relação entre objeto e sujeito que se apresenta nos estados profundos de cognição, relacionados com a Concentração2 e a Meditação3.
OCIDENTE E ORIENTE
No ocidente estuda-se a cognição unicamente associada aos estados de consciência denominados respectivamente estado onírico4 e da vigília5 . Tanto as ciências como as artes desenvolvidas no Ocidente se fundamentam nestes dois únicos estados de consciência.
Desde o nascimento organizado do pensamento (estudado no Ocidente por Tales de Mileto nos primórdios das tradições Gregas) até nossos dias , o universo interior e exterior foram reduzidos ao jogo de inter-relação entre objeto e sujeito cuja característica essencial é a diferença que existe entre eles , a eterna dualidade que floresce( há) entre o “conhecedor” e o “conhecido”.
O realismo, sistema filosófico que sustenta todo o pensamento cientifico ocidental, se apóia no fato de que os objetos conhecidos existem independentes do observador que os conhece ; quer dizer , ambos observador e observado são essencialmente diferentes.. Esta dualidade proposta em nossa cultura ocidental esta minada/ameaçada pelos novos descobrimentos da física quântica , onde se propõe uma interação entre eles.Essa interação modifica o conhecido pelo simples fato de que o observador intervêm na percepção.
Diferentemente do sistema epistemológico dual que o Ocidente oferece, a tradição oriental considera a existência de dois estados adicionais de cognição, nos quais a relação objeto-sujeito apresenta uma condição exótica .
A criação do termo não-dualidade, é atribuído ao promulgador do sistema Vedanta Advaita, Sankarasharya6 que afirmou que , alem da cotidiana percepção dual do ser humano quando este indaga o universo na vigília e em sonhos, é possível introduzir uma nova e excepcional percepção na qual é possível experimentar a ausência de diferença( isto é, a não-diferenciação) entre sujeito e objeto. Essa qualidade perceptiva não-dual, acontece em estados superiores de consciência denominados Concentração Meditação e Samadhi7.
A PRATICA DA MEDITAÇÃO
A essência da Meditação consiste em promover a ausência da diferença entre o “perceptor” e o “percebido”. Para isso é necessário erradicar o sentido do”eu”
O “eu” ou a “eu-dade” ( sentido de eu) , que no Ocidente constituem o fundamento da existência , deve ser eliminado da cognição. A “eu-dade”, ou experiência do “eu”, se reflete no sentido de propriedade, de pertinência , de auto definição que atua associado a todo pensamento. Desta maneira o sentido de “o meu”, a experiência de “minha historia”, e toda a , conjugação de qualquer ação que se refira ao pronome na primeira pessoa , isto é, ao “eu”, desaparece dando lugar a uma peculiar forma de cognição onde prevalece o ato consciente, porem não existe mais o sentido de “eu”.
O Oriente considera o “eu” como um agente momentâneo e virtual que pode relacionar-se com os pensamentos e que cria sentido de identidade com eles.
Esta única e peculiar forma de cognição não é estudada pelo Ocidente em suas diversas análises da conduta, pois é experimentada exclusivamente quando a atenção se pousa ininterruptamente no que se costuma denominar “o Presente”, quer dizer, no “aqui e agora” ou no “o que esta acontecendo”
Quando a atenção se coloca no presente sem que haja identificação , sentido de propriedade ou de posse com a ação ou com o pensamento, então a cognição “salta” para um novo estado de consciência denominado Concentração8
Quando a atenção se mantêm novamente, e de forma ininterrupta na Concentração, irrompe imediatamente o estado de Meditação, que constitui uma experiência intensa e fundamental do praticante meditativo, na qual é possível reconhecer a natureza essencial do ser humano e do universo, e especialmente, ser consciente de ambos de modo absolutamente simultâneo e ubíquo.
CONCLUSÃO
A não-dualidade é a essência do pensamento metafísico oriental. Sua descrição permite o conhecimento da transcendência do ser humano. Sua analise nos faculta o entendimento claro e conciso do real ordenamento da natureza.
A não-dualidade e uma idéia maravilhosa que é possível ser relacionada com a ciência, a arte , a religião e a filosofia. É uma dessas idéias estranhas mas fundamentais com as quais o investigador sincero se encontra quando atinge as profundidades do oceano de si mesmo.
1 A tradução Sânscrita deste termo é bastante livre e significa “o fim do conhecimento não-dual, ou também “filosofia final não-dual”.
2 Em Sanscrito Dharana, conceito nomeado por Patanjali para definir o estado primário ou básico de não- dualidade.
3 - Em Sânscrito Dhyana, também nomeado por Patanjali para definir o estado final ou estável de não –dualidade.
4 Nos referimos ao estado de consciência do sonho, tipo especial de cognição no qual emergem sujeitos e objetos de modo similar ao que ocorre quando se esta desperto.
5 Tipo especial de cognição a qual nos referimos normalmente para definir a forma de atuação entre objeto e sujeito enquanto estamos despertos na vida cotidiana.
6 - Filosofo indiano do século VII considerado o maior pensador de todos os tempos .Seus trinta e seis anos de vida foram um tempo suficiente para reestruturar a essência do conhecimento oriental contida nos Upanishads e nos Vedas.
7 O Samadhi é uma forma peculiar de cognição no qual todos os objetos potencialmente existentes e conhecíveis, se experimentam simultaneamente , quer dizer , podem ser conhecidos simultânea e ubiquamente por um único conhecedor que é não –diferente do próprio universo que ele conhece.
8 Devido a falta de espaço e a simplicidade do presente artigo, não nos aprofundaremos nos estados de cognição associados a percepção não-dual.
Entretanto, para o leitor que deseje se aprofundar, se aconselha a ler e estudar cuidadosamente qualquer das obras escritas por Sesha.
Fotografia:
Sri Sankaracharya, que cunhou o termo não-dualidade e organizou o compendio de suas idéias no sistema Vedanta Advaita. Embora tenha vivido somente 33 anos, foi o principal expoente dos ensinamentos ancestrais contidos nos upanishads.
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