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Artigo da revista “Vida Natural”, Janeiro 2007

Não-dualidade

 

O  conceito não-dualidade é um termo utilizado pela tradição oriental,  mais especificamente pelo sistema metafísico Vedanta  Advaita1 , para denominar um tipo especial de relação entre objeto e sujeito que se apresenta nos estados profundos de cognição, relacionados com a Concentração2 e a Meditação3.

 

OCIDENTE E ORIENTE

No ocidente estuda-se a cognição unicamente associada aos estados de consciência  denominados respectivamente  estado onírico4 e da vigília5 . Tanto as ciências como as artes  desenvolvidas no Ocidente se fundamentam nestes dois únicos estados de consciência.

Desde o nascimento organizado  do pensamento (estudado no Ocidente por Tales de Mileto  nos primórdios das tradições Gregas) até nossos dias , o universo interior  e exterior  foram reduzidos  ao jogo de inter-relação entre  objeto e sujeito  cuja característica  essencial é a diferença que existe entre eles  , a eterna dualidade que floresce( há) entre o “conhecedor” e o “conhecido”.

O realismo, sistema filosófico que sustenta todo o pensamento cientifico ocidental, se apóia no fato de que os objetos conhecidos existem independentes do observador que os conhece ; quer dizer , ambos observador e observado são essencialmente diferentes.. Esta dualidade proposta  em nossa cultura  ocidental esta minada/ameaçada pelos novos descobrimentos da física  quântica , onde se propõe uma interação entre eles.Essa interação modifica o conhecido pelo simples fato de que o observador intervêm na percepção.

Diferentemente do sistema epistemológico dual que o Ocidente oferece, a tradição oriental  considera a existência de dois estados adicionais  de cognição, nos quais a relação objeto-sujeito apresenta uma condição exótica .

A criação do termo não-dualidade, é atribuído ao promulgador do sistema  Vedanta Advaita, Sankarasharya6 que afirmou que , alem da cotidiana percepção dual do ser humano quando  este indaga o universo na vigília  e em sonhos, é possível introduzir  uma nova e excepcional percepção na qual é possível experimentar a ausência  de diferença( isto é, a não-diferenciação) entre sujeito e objeto. Essa qualidade perceptiva  não-dual, acontece  em estados superiores  de consciência denominados  Concentração Meditação e Samadhi7.

 

A PRATICA DA MEDITAÇÃO

A essência da Meditação consiste em promover a ausência da diferença  entre o “perceptor” e o “percebido”. Para isso é necessário erradicar o sentido do”eu”

O “eu” ou a “eu-dade” ( sentido de eu) , que no Ocidente constituem o fundamento da existência , deve ser eliminado  da cognição. A “eu-dade”, ou experiência do “eu”, se reflete no sentido de propriedade, de pertinência , de auto definição que atua associado a todo pensamento. Desta maneira o sentido de “o meu”, a experiência de “minha historia”, e toda a , conjugação de  qualquer ação que se refira ao pronome na primeira pessoa , isto é,  ao “eu”, desaparece dando lugar  a uma peculiar forma de cognição onde prevalece o ato consciente, porem não existe mais o sentido de “eu”.

O Oriente considera o “eu” como um agente momentâneo e virtual que pode  relacionar-se com os pensamentos  e que cria sentido de identidade  com eles.

  1. Afirmar “Sou Luiz, Pedro ou Maria” implica  identificar-se com a própria historia. Entretanto, conhecer-se usando a historia, mas sem identificá-la com um   com um agente  que evolui através do tempo, implica em uma reordenação na cognição de tal modo que  quem “conhece” não se vê diferente do “conhecido”.

 

Esta única e peculiar forma de cognição não é estudada pelo Ocidente em suas diversas análises da conduta, pois é experimentada exclusivamente quando a atenção se pousa ininterruptamente no que se costuma denominar “o Presente”, quer dizer, no “aqui e agora” ou no “o que esta acontecendo”

Quando a atenção se coloca no presente  sem que haja identificação , sentido de propriedade  ou de posse  com a ação ou com o pensamento, então a cognição “salta” para um novo estado de consciência denominado Concentração8

Quando a atenção se mantêm novamente, e de forma ininterrupta  na Concentração, irrompe imediatamente o estado de Meditação, que  constitui uma experiência intensa e fundamental do praticante meditativo, na qual é possível reconhecer a natureza essencial do ser humano e do universo, e especialmente, ser consciente de ambos de modo absolutamente simultâneo e ubíquo.

 

CONCLUSÃO

A não-dualidade  é a essência do pensamento metafísico oriental. Sua descrição permite o conhecimento da transcendência do ser humano. Sua  analise nos faculta o entendimento claro e conciso do real ordenamento da natureza.

A não-dualidade  e uma idéia maravilhosa   que é possível ser relacionada  com a ciência, a arte , a religião e a filosofia. É uma dessas idéias estranhas mas fundamentais  com as quais o investigador sincero se encontra quando  atinge  as profundidades do oceano de si mesmo.



1 A tradução Sânscrita deste termo é  bastante  livre e significa  “o fim do conhecimento não-dual, ou também “filosofia final não-dual”.

2 Em Sanscrito Dharana, conceito nomeado por Patanjali para definir o estado primário ou básico de não- dualidade.

3 - Em Sânscrito Dhyana, também nomeado por Patanjali para definir o estado final  ou estável de não –dualidade.

4 Nos referimos ao estado de consciência do sonho, tipo especial de cognição no qual emergem sujeitos e objetos de modo similar ao que ocorre quando se esta desperto.

5 Tipo especial de cognição a qual nos referimos  normalmente para definir a forma de atuação entre objeto e sujeito enquanto estamos despertos na vida cotidiana.

6 - Filosofo indiano  do século VII considerado o maior pensador  de todos os tempos .Seus trinta e seis anos de vida  foram  um  tempo suficiente  para reestruturar a essência do conhecimento oriental contida nos Upanishads e nos Vedas.

7 O Samadhi  é uma forma peculiar  de cognição  no qual todos os objetos potencialmente existentes e conhecíveis, se experimentam simultaneamente , quer dizer , podem ser conhecidos simultânea e ubiquamente por um único conhecedor  que é não –diferente  do próprio universo que ele conhece.

8 Devido a falta de espaço e a  simplicidade  do presente artigo, não  nos aprofundaremos nos estados de cognição associados a percepção não-dual.

Entretanto, para o leitor que deseje se aprofundar, se aconselha a ler e estudar cuidadosamente qualquer das obras escritas por Sesha.

 

Fotografia:

Sri Sankaracharya,  que cunhou o termo não-dualidade e organizou o compendio de suas idéias no sistema Vedanta Advaita. Embora tenha vivido somente 33 anos, foi o principal expoente dos ensinamentos ancestrais contidos nos upanishads.

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