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Entrevista com Sesha publicada na revista Verdemente, março 2005

Meditação, Não-dualidade e Vedanta Advaita

O que é o Vedanta Advaita?

O Vedanta Advaita, o Vedanta Não-dual, é a jóia suprema da tradição filosófica hindu. É um sistema filosófico teórico e prático que dá resposta às perguntas fundamentais que todo ser humano possa ter e que estuda em profundidade os diferentes níveis de consciência, que vão desde o estado onírico até os maravilhosos estados da Não-dualidade que atuam na Meditação e no Samadhi.

A que se refere o termo “advaita’, quer dizer, “não-dualidade” ?

Para explicar de uma maneira breve e simples, o conceito de não-dualidade ou não-diferença faz alusão ao fato de que o observador é não-diferente daquilo que observa;  ou que o sujeito é não-diferente do objeto; ou que o indivíduo é não-diferente do Absoluto. Por exemplo, isso quer dizer que, embora duas células quaisquer de seu corpo não sejam a mesma célula, ambas são não-diferentes; de fato, ambas compartilham a mesma informação genética. Do mesmo modo, embora você não seja eu, nem eu seja você, ambos somos essencialmente não-diferentes. Isto é exatamente o que vê um gnani ou sábio hindu, um místico cristão ou islâmico, um Buda ou qualquer ser iluminado ou desperto de qualquer tradição.

E o que é meditar, a partir da perspectiva Advaita?

Meditar é a aquietação da agitação mental. Meditar não é destruir a mente, mas aquietá-la; é permitir que a Consciência conheça diretamente a Realidade sem a mediação ou interferência da atividade mental.

Você quer dizer que é possível conhecer sem a intervenção da mente? Como é isso?

No Ocidente é comum equiparar a mente à Consciência; quer dizer, se considera que quem conhece é a mente. Entretanto, isto não é assim. Pode soar estranho, mas é muito fácil de ver: por exemplo, quando a mente se aquieta, quer dizer, quando não há pensamentos, é evidente que continua a haver percepção e consciência. De fato, a pessoa é mais consciente e perceptiva quando não há pensamentos. Isto demonstra que, na realidade, aquilo que em nós conhece verdadeiramente não é a mente pensante, mas outro aspecto mais profundo, autêntico e genuíno. Essa parte luminosa que realmente conhece é o que se denomina Consciência; a mente é só seu reflexo.

Então, meditar é não pensar?

Para sermos mais precisos, podemos dizer que meditar é perceber o mundo sem a intervenção dialética que a mente manifesta constantemente. Evidentemente, a mente continua existindo, mas sua atividade não é parte fundamental do processo cognitivo. E uma conseqüência deliciosa da aquietação da atividade mental é que, embora prossiga a atividade cognitiva, inclusive ainda mais enriquecida, há ausência egóica.

Ausência egóica? Você quer dizer que o “ego” desaparece ao desaparecer a mente?

Efetivamente. O ego ou “eu” é uma parte da atividade mental. De fato, é esse aspecto da mente que dá sentido de apropriação e de propriedade; isto é o que é o ego definitivamente: sentido de propriedade, de ser “eu”, do que é “meu”. Isto é fácil de entender: por exemplo, diga-me quem é você sem pensar sobre isto ... Nestes momentos, enquanto sua mente está aquietada, você me entende, de modo que você sabe, e sabe que você sabe, e sabe que você é; mas, se você não pensa, você não sabe “quem” é você. Quer dizer: você pode saber tudo, mas somente aparece como um “eu”, com seu nome e sua história, quando pensa sobre isso. Assim, a aquietação mental leva ao desaparecimento deste sentido de apropriação egóica, do sentido de ser um “alguém” separado, embora o saber siga existindo. Isto demonstra que há saber sem o requisito de que haja “alguém” proprietário do saber, quer dizer, de um “eu” que saiba. O saber é um ato que se expressa muito além de que exista um aparente dono do saber

Se não há mente, quer dizer, se não há pensamentos nem um ego, então, como é possível saber? Como ocorre o saber? E quem é aquele que sabe?

Imagine uma corrente de intuição permanente e permita a ela ser consciente do saber que possua. Notará que, enquanto a intuição está ativa, não existe dono do saber; assim, haverá um saber que não é de ninguém, mas que é conhecido pelo próprio saber. A esta forma de cognição denominamos Não-dualidade, e à atividade que educa a mente para produzir um tipo persistente de cognição Não-dual denominamos meditação.

Como se faz então para falar, comunicar-se com as pessoas, andar ...?

Da mesma maneira como você faz para controlar a absorção dos alimentos através das enzimas ou manter o ritmo cardíaco.

Mas essas funções se realizam automaticamente ...., não é necessário pensar nelas!

Exatamente. Da mesma maneira, a capacidade de compreender, fruto da qualidade inata da Consciência, permite saber automaticamente sem necessidade de pensar. Pensar é o ato de dar “nomes” mentais às “formas” externas, e “formas” mentais aos “nomes” externos. A habilidade em não realizar tal tipo de associações mentais é o que se denomina meditação.

Como se experimenta o mundo quando você não realiza a associação dos “nomes” às “formas” ou das “formas” aos “nomes”?

O mundo segue existindo, obviamente; mas desaparece o sentido de experimentar-se a si mesmo como um agente separado do resto do mundo; quer dizer, desaparece da cena cognitiva o sentido do “eu”, do “meu”. A relação que se estabelece então entre o que se percebe e quem o percebe toma um novo rumo; a essa nova perspectiva de viver a realidade denominamos Não-dualidade.

Não-dualidade !

Sim. A Não-dualidade tem a ver com a maneira como se relacionam observador e observado. Quando não existe observador diferenciado do observado, então o observador é o observado e o mundo se experimenta como Não-dual. Isto quer dizer que quando se vê qualquer coisa, vê-se a si mesmo, pois se é tudo o que é.

E como se alcança isto?

Justamente pela prática meditativa. Quando a mente se modela através da prática meditativa, isso permite que desapareça a representação diferenciada que se costuma ter quando se experimentam os objetos. A mente então adquire um sentido de quietude maravilhoso. Entenda, a mente existe, mas permanece quieta.

E como a condição de uma mente quieta afeta a vida cotidiana?

Permite permanecer constantemente na atividade que se realiza sem que exista distração alguma. A mente não subjaz na fantasia nem na imaginação descontrolada. A mente responde naturalmente ante os fatos que se sucedem em oportunidade de lugar e tempo.

O nível de atenção melhora, permitindo uma eficiência maior em todo trabalho físico e mental. O sistema nervoso descansa enquanto se realiza a ação, pois a entrega a cada instante inibe o aparecimento de pensamentos variados e não relacionados com o instante e, por conseguinte, há um nível menor  de estresse na cognição.

Uma vez  que o sistema nervoso não se oprime pela tensão de uma mente sem controle, isto permite realizar cada ato detalhadamente e com maior intensidade; razão pela qual realizar a ação se converte em uma fonte de prazer, de uma alegria que não requer de uma causa ou motivo. Isto é a alegria sem objeto, a bem-aventurança suprema.

O que levou você a indagar e se aprofundar na meditação ?

Minha inquietação, como na maioria dos jovens e adolescentes, estava relacionada com a razão de ser de todas as coisas: por que o mundo é como é, por que Deus é como é; em fim, com este questionamento simples que a mente ingênua de um adolescente normalmente se defronta.

Diferentemente do que ocorre com outras pessoas, o cansaço não venceu meu anseio de encontrar respostas. Durante anos e anos indaguei em mim mesmo a razão de ser do pensar e do existir. Embora não tivesse profundas ferramentas filosóficas, tinha a mim mesmo. Indagava em minha própria atividade mental, tentando encontrar um protocolo de funcionamento do processo cognitivo. Anos de estudo em mim mesmo, e contínuas observações dos processos interiores e mentais, me levaram a experimentar situações que às vezes os livros sagrados orientais narravam. Comecei a compreender que minha experiência interior possuía condições semelhantes ao que estava escrito havia milênios. Finalmente, a experiência máxima do saber se realizou; a partir daí as coisas ficaram diferentes; agora a mente era um livro completamente aberto.

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