cabecera
Início » Publicações » Artigos » Verdemente, abril 2005
logo transparente
mancha
English · Español · Français
icono facebook icono twitter

Entrevista com Sesha publicada na revista Verdemente, abril 2005

Meditação e Vedanta Advaita

 

Quais são as origens do Vedanta Advaita?

O Vedanta – termo que significa literalmente “o fim dos Vedas” -, é a denominação que recebe o principal sistema metafísico da Índia. Por sua vez, os Vedas – palavra derivada da raiz sânscrita “ved”, que significa “conhecer” o “Real Saber”- é o nome que recebem as primeiras e mais sagradas escrituras indo-européias. Assim, o Vedanta representa a culminação metafísica ou o ponto alto do Real Saber originado na Índia em épocas imemoráveis.

O fundamental do sistema Vedanta é formado pela confluência dos Upanishads (que constituem a vertente mais filosófica dos Vedas) com os Brahma Sutras ou Vedanta Sutras (aforismos atribuídos a Sri Ved Vyasa) e com o Bhagavad Guita (atribuído também a Vyasa e que forma parte da epopéia do Mahabharata).

O Vedanta apresenta três escolas com diferentes matizes. Falaremos nesta entrevista da escola Advaita ou Não-dualista, cujo ensinamento fundamental afirma que o indivíduo é não-diferente do Absoluto Não-dual (Brahman). Sua sistematização se deve basicamente a Sri Samkara Acharya e seus discípulos.

Qual é a autêntica natureza da Realidade segundo o Vedanta Advaita?

Permita-me que o explique mediante uma história:

Conta a tradição que havia uma vez um rei chamado Yanaka que era muito justo e sábio. Todos os seus súditos o amavam, pois sempre pensava neles antes dele mesmo. Todas as pessoas que viviam naquele reino prosperavam, todos os projetos que ali se desenvolviam tinham êxito; inclusive parecia que a natureza fora especialmente benigna naquele lugar, de modo que tudo frutificava mais nesse reino que nos reinos vizinhos.

Era costume que todos aqueles que desejavam educar-se no caminho do    auto-conhecimento procurassem a corte do rei Yanaka.

Um jovem chamado Asthavaku foi levado para lá por seu pai para que aprendesse dos mestres o caminho do autoconhecimento. Asthavaku estudou muitos anos na corte com os mestres mais famosos do reino, e depois regressou à sua casa. Na sua chegada, seu pai o perguntou se realmente havia conhecido a essência de todas as coisas. Asthavaku respondeu afirmativamente, pois os mestres o haviam ensinado a essência real do porquê de todas as coisas e lhe haviam instruído acerca do que é Aquilo que subsiste em tudo que existe.

Tendo falado o mencionado anteriormente, seu pai perguntou:

-  Filho, qual é a essência desta árvore que se encontra a meu lado?

Asthavaku se aproximou da árvore, tomou um de seus frutos, o partiu e pegando uma semente disse:

-  Esta semente é a essência desta árvore, é a essência desta majestosa frutífera. Esta semente é ao mesmo tempo a essência que com o tempo frutificará em milhares de outras árvores que, por sua vez, gerarão milhares de frutos adicionais. Será semente do lugar em que farão um ninho e habitarão inumeráveis aves e infinidades de insetos. Graças à descendência desta semente saciaremos a fome de inumeráveis pessoas; com sua lenha poderemos proteger-nos do frio e refugiar-nos bem em nossos lares. Esta semente é, além dela mesma, umas infinitas coisas mais que hão de surgir no futuro.

Logo após escutá-lo atentamente, seu pai o perguntou novamente:

-  E qual é a essência da semente?

Depois de meditar uns instantes e sem saber o que responder, Asthavaku respondeu que não o sabia, que isso não o haviam ensinado. E pelo respeito que se costuma ter na Índia pelos pais, Asthavaku pediu a seu pai dizendo:

-  Por favor ensina-me o Senhor, se por acaso tiveres a resposta.

Seu pai lhe respondeu:

-  Segure a semente entre seus dedos e abra-a.

Asthavaku fez o que seu pai o havia pedido e abriu a semente que se quebrou em várias partes.

-  O que vês dentro dela? prosseguiu o pai.

-  Não vejo nada – respondeu Ashtavaku perplexo.

-  Pois essa é a essência de tudo – lhe diz então seu pai -, é a essência da semente, é a essência das árvores e é a essência de todas as coisas que frutificarão algum dia. Essa é a essência de tudo aquilo que já existiu, existe e existirá. Essa essência é Nada.

A esse Nada que descreve esta história denomina-se de muitas maneiras. Alguns lhe dão o nome de Deus, outros o de Tao e outros ainda a qualificam de iluminação, supondo que graças a ela algum dia descobrirão a razão de ser, do porquê de todas as coisas e a razão de ser de seu próprio entendimento.

O Vedanta, para ensiná-lo, para criar uma pedagogia, para criar um sistema através do qual Aquilo possa ser accessível e compreensível, denomina Não-dualidade à forma em que esse Nada se revela cognitivamente ao ser humano. Esse Nada é a razão de ser de todas as coisas, é o porquê de tudo quanto existe e, embora esteja em tudo, não pode ser nunca apreendido, não pode ser entendido dialeticamente, ainda que sim possa ser experimentado.

Não pode ser entendido, mas sim experimentado ! Que quer dizer?

Esse Nada, essa razão de ser de tudo, essa essência que existe mais além de todas as coisas, à qual todos os santos adoram, para a qual se tem cantado infinitos hinos.  Isso, que não há quem não reverencie se alguma vez tenha chegado ao menos a sentir seu aroma, se torna inapreensível, inabarcável, impensável à mente ... a mente não pode ao menos imaginá-la. Entretanto, todos os que a tenham vivido sabem e contam que é experimentável ou, mais precisamente, que é vivenciável, pois o Ser-Consciência-Bem-Aventurança absolutas que somos é exatamente da mesma natureza que esse Nada. É a isso que o conceito de Não-dualidade se refere:  a que somos não-diferentes d”Isso, e o Vedanta o expressa de forma resumida afirmando que “o indivíduo é não-diferente do Absoluto”.

A apreciação da Não-dualidade é uma cognição altamente intensa. Não se parece com nada que vocês conheçam, não existe algo que vocês conheçam e que se pareça com Isso. Vocês podem conhecer a intensidade de, por exemplo, um amanhecer ou um entardecer, ou de um imenso céu estrelado que se desdobra na Via Láctea, que pode arrebatá-los e mantê-los fundidos naquilo que estão percebendo, ou podem permanecer arrebatados em uma experiência interior ou em uma experiência sensória, ou podem estar submersos em um orgasmo ... Pode ser que conheçam qualquer desses tipos de atos, o mais intenso que vocês possam imaginar ou o mais intenso que sejam capazes de sustentar ou de agüentar ... e, não obstante, o mais intenso de todos esses atos não é ao menos um breve vislumbre do que é a Não-dualidade, porque a Não-dualidade é Puro Conhecer e, ao mesmo tempo, Puro Conhecer-Se. Sim, assim é. Por isso é inimaginável.

Como podemos então falar desse Nada? Como se pode transmitir ou ensinar isso?

A questão é: que é Isso? Que é Isso que tem de encontrar? Que é Isso que cura todos os males? Que é Isso que aplaca todas as dores? Que é Isso que, por sua simplicidade, pode explicar o mais complexo; e, por sua complexidade, não pode ser entendido?

Essa Essência Primária ultrapassa absolutamente as possibilidades da mente, é totalmente impossível pensá-la ou ao menos imaginá-la. Não obstante, há como ser vivenciada, há maneiras da pessoa encontrar-se com ela, há caminhos para isso. O principal canal, a principal via que a tradição Vedanta reconhece, e através da qual é possível realizar tão sublime vivência, se denomina Meditação.

E qual é a técnica de meditação do Vedanta Advaita? Em que parece ou se diferencia do Zen ou do Vipassana ou de outras técnicas meditativas?

Essa pergunta contém um erro muito comum; e lhe agradeço muito que tenha feito essa pergunta, pois deste modo poderei esclarecer este erro de conceituação tão típico. Permita-me que lhe explique: meditar não é uma técnica. Emprega-se técnicas para facilitar ou ajudar a educar a mente, mas o fato de meditar, quer dizer, a meditação em si, não é em absoluto uma técnica.

Meditar é entregar-se. Há um momento em que a percepção interior no presente é uma atitude de entrega. Eu passei anos experimentando se meditar era isto ou era aquilo, se é olhando para lá, ou para cá, agachado ou assim e assado. Porque acreditava que tinha que fazer algo que eu não sabia, que faltava a técnica ... e isso é mentira. Isso chega sem saber como nem porque, e assim se vai.  Mas é uma atitude de entrega interior. É uma atitude de presente. É uma atitude tão limpa, tão limpa a nível interior, que não há o mais mínimo esforço psicológico. Isso é Meditação.

A Meditação é a apreciação interior sem o mínimo esforço psicológico. É a ausência total de esforço psicológico. Isso é meditar. É estar ali e somente estar. Somente estar. Somente isso. Mas não é estar mentalmente ali .... é entregar-se mentalmente ali. É não desejar nada, não querer nada, não querer colocar-se frente a nada, nem ao menos sobre si mesmo.

E assim é que, às vezes, as pessoas quando chegam Àquilo o alcançam por desespero. Porque fazendo algo não se chega. Deixando de fazer algo, tampouco. É um estado que emerge espontaneamente. É um ato de entrega. É um ato de entrega divina. É um ato de entrega interior. É como dizer à natureza, à vida, que ela é mais sábia que nós e que ela nos carregue. Que ela sabe mais que nós ... então, que ela nos ensine. Meditar é um ato de entrega pura, não-egoísta, limpa. Então, Aquilo ama e se ama a Si Mesmo, e conhece e conhece a Si Mesmo, e se dá conta que existe e existe em Si Mesmo. E isso é, então, meditar.

© Asociación Filosófica Vedanta Advaita Sesha 2006-2019 — Informação Legal · Créditos · Mapa do site