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Artigo de Sesha publicado na revista Espacio Humano, março 2005

Vedanta Advaita e Meditação

Sesha

O Vedanta Advaita é a jóia suprema da tradição filosófica hindu. É um sistema teórico e prático que dá explicação às perguntas fundamentais que todo ser humano pode propor.

O Vedanta Advaita estuda em profundidade a prática meditativa e os diferentes níveis de consciência, que vão desde o estado onírico até os maravilhosos estados da Não-dualidade que atuam no estado de Meditação e no Samadhi.  A seguir iremos explicar brevemente o que é meditar, o que é o presente e o que é a não-dualidade a partir da perspectiva Advaita (Advaita quer dizer “não-dual” ou “não-diferente”).

Dentro do processo da meditação, a atenção é muito importante para o Vedanta; mais do que isso, é fundamental. A condição diferenciada do mundo se constrói, como é comum, se nós estamos com a atenção dirigida ao que aconteceu alguma vez no passado ou o que pode acontecer no futuro, quer dizer, quando pensamos. O fato de pensar faz com que percebamos um mundo diferenciado e a nós como diferenciados dele, pois ao pensar estamos sempre recordando o que aconteceu no passado ou o que poderá acontecer no futuro. Por outro lado, se somos capazes de estar atentos unicamente o que está acontecendo no presente, o pensamento cessa e a condição diferenciada do mundo se fratura.

Portanto, meditar é simplesmente, prestar atenção ao que está acontecendo no presente.

Sabem o que é o presente? O presente é o que está acontecendo aqui e agora. Por exemplo, neste instante o presente é a leitura deste artigo.

O paradoxo é que quando estão lendo e estão no presente, vocês não estão. Mas quando vocês se reconhecem a si mesmos, já não estão no presente. Quer dizer, quando pensam, não estão no presente, e quando não pensam, não sabem que estão no presente. Notaram? Isto é paradoxal.

Vocês já perceberam  que há momentos em que estão lendo e vocês não estão em nenhum lugar? Mas se começam a pensar, o que acontece? Aparecem aí, lendo. E quando aparecem lendo, estão no presente? Não. Mas, quando estão no presente, se percebem lendo? Não.

O presente é estranho assim. No presente não há alguém, porque o presente é integrador. O presente é como ser uma gota e cair no rio: não há fronteiras. É como ser um rio e desembocar no mar: não há fronteiras. É como ser  o mar e unir-se ao oceano: não há fronteiras. No presente, ser gota é ser rio, e ser rio é ser mar e ser mar é ser oceano. Ou seja, no presente ser gota é ser toda a água. Por isso, no presente não há um sujeito diferenciado.

Então, o que é meditar? Meditar é estar atento ao presente. O presente possui essa condição mágica, essa estranha e única circunstância de que as coisas não possuem fronteiras, não possuem limitantes. No presente não há alguém diferenciado pensando as coisas com base nas descrições intelectuais e da memória.

O presente possui magia. O presente é pura compreensão que se  compreende a si mesma. Por isso não necessitamos saber quem compreende no presente. Por que? Porque  o presente é  a compreensão que compreende a si mesma.

Para nós é importante a condição do presente, é muito, muito importante; porque é uma espécie de dissolvente de fronteiras, é uma espécie de  detergente mental. O presente fratura as fronteiras. E o que sobra se não há fronteiras? Que há? Pois o que há é uma massa viva de informação que tem a condição de saber e de conhecer. Para nós, isso é o que realmente é o ser humano: o ser humano é uma maravilhosa massa de condição viva de consciência que não depende do tempo nem depende do espaço, e que graças ao ato do presente é capaz de converter-se na totalidade das coisas e de fluir na eternidade.

Portanto, o que é para o Vedanta meditar? Meditar é estar atento ao ... presente. No presente há tanta vida, tanta, que essa vivacidade deslumbra de tal forma que é capaz de apagar as fronteiras entre o observador e o observado. Por isso o Vedanta Advaita afirma que a maior compreensão se dá quando o observador é o observado e o observado é o observador.

Nós analisamos a força da compreensão e tratamos de saber o que é que se passa ali.  Tratamos de permanecer no presente, tentamos descobrir os mistérios que há num instante que pode converter-se em eterno.

O que nós propomos é que a condição da atenção mantida contìnuamente no que chamamos de presente, quer dizer, a condição da atenção contínua no aqui e no agora, faz com que a condição da informação que constitui o Universo requeira uma nova ordem.

Neste caso, a reordenação da informação que constitui o universo é tal, que no presente as fronteiras se apagam e aparece uma condição total. Nós a chamamos de não-dualidade ou não-diferença. Porque é não-diferente? Porque embora seja certo que haja informação, a informação se reordena como não-diferente. Quer dizer, a informação não desaparece; não desaparece nossa conta corrente, não desaparece o marido, nem a esposa nem os filhos, nada desaparece no presente. O que sim desaparece é a condição de perceber o observado como diferente do observador. Isso é o que desaparece. Não desaparece a informação, mas sim desaparece a condição de descrever o conhecido através de alguém que se experimenta diferente dele.

Essa condição diferenciada que se exclui, que desaparece, que se apaga, ocorre no presente. Temos então, que a percepção de quem conhece no presente se transforma em uma espécie de vislumbre de totalidade sem tempo, sem espaço, sem história. É uma experiência maravilhosa e única. Essa vivência é o que o Vedanta Advaita denomina meditação.

Essa modalidade gera um equilíbrio, uma tranqüilidade e totalidade não equiparada a nenhuma experiência. Vocês conseguem imaginar o que é ser consciente da ausência de limite pessoal?

Mas como alcançar essa experiência? Como sistematizar um processo para que as coisas que parecem diferenciadas se experimentem como não-diferentes? Esse processo de sistematização é o que o Vedanta desenvolveu durante milênios. Nisso consiste a prática meditativa.

Em outras palavras: a meditação não é ver coisas bonitas, porque enquanto haja quem as vê, há objeto e sujeito diferenciados. A meditação não foi concebida para ver coisas de outras vidas, porque enquanto haja quem as vê, há objeto e sujeito diferenciados. A meditação não é para ver cores brilhantes e bonitas, ou mestres, ou chakras, ou formas maravilhosas... Por que nos perguntamos: quem vê todas essas formas? Se há alguém que as vê, então há diferenciação entre objeto e sujeito, e enquanto isso for assim, isso não é meditar.

O que é afinal meditar? Detalhar a prática meditativa Vedanta é algo que ultrapassa as fronteiras deste breve artigo. Porém, de forma simplificada, é possível dizer que, para nós, meditar é chittta vritti nirodaha, que em sânscrito significa “aquietar as flutuações da mente”. Portanto, a prática meditativa tem a ver com aquietar os pensamentos; ou, mais precisamente, refere-se a manter a  atenção continuamente ao que acontece no presente, sem pensá-lo, pois se pensamos o presente, já não estamos nele; e isto tanto internamente (contemplando em quietude dentro de nós mesmos) como externamente (contemplando enquanto atuamos no mundo exterior).

Isso é meditar.

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